quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Elogio do sofá

Para muitos de nós, é a doença ou a perda de um familiar que nos faz encarar pela primeira vez a morte. A minha mãe tem um cancro incurável no pulmão, embora nunca tenha fumado. Uma tarde, enquanto estava deitada na cama ao lado dela, ouvindo a sua respiração e o tiquetaque do relógio na mesinha-de-cabeceira, percebi pela primeira vez na minha vida que o tempo, um dia, irá acabar para todos nós.
Decidi estar com a minha mãe o mais tempo possível. Isto não tem nada com o sentido do dever, mas quero estar perto dela para apreciar o tom das suas gargalhadas, para a tranquilizar e para me tranquilizar com a sua presença. Mas conseguir tempo para estar com ela foi o meu maior desafio. Tal como a maioria das pessoas que conheço, sou uma pessoa muito ocupada. Tenho um marido, um filho de 4 anos cheio de energia e uma casa para governar. Também mantenho um emprego muito exigente como co-apresentadora de um programa na Rádio 4 da BBC chamado You and Yours (Você e as Suas
Coisas).
Consenti a mim própria um sorriso forçado quando um dia cheguei ao emprego e me disseram que iríamos fazer uma série de programas para explorar o tema da falta de tempo.
A noção de que somos uma geração com escassez de tempo chegou até nós via Estados Unidos. Nunca tinha dado muita atenção a isto. Como é que eu – que sou uma pessoa com tantos electrodomésticos para poupar trabalho e um filho – tenho menos tempo livre do que a minha mãe, que teve seis filhos e nem sequer uma máquina de lavar?
Coloquei esta questão ao professor universitário americano que tem dedicado a vida ao estudo da falta de tempo. Ele salientou o facto de que, apesar de eu ter mais aparelhos para poupar trabalho, também tento manter a minha casa mais limpa do que a minha mãe.
«Somos uma geração que estabeleceu uma fasquia muito alta para si própria em quase todas as áreas da vida», disse ele. Lutamos para conseguir ultrapassá-los, criando horários tão sobrecarregados que andamos num constante estado de ansiedade.
Esta análise tocou num ponto fulcral. Eu desejo manter a casa mais limpa e arrumada do que a minha mãe. Tenho dinheiro para gastar em quadros, flores e mobília. Estou a tentar criar algo de perfeito e fico infeliz se vejo desarrumação ou pó. E, para ser sincera, gosto de exibir isso aos amigos.
O meu marido goza comigo e diz que eu faço desaparecer todo e qualquer vestígio de vida humana antes de alguém chegar...
As ideias do professor sobre o impacto das nossas vidas de trabalho soou igualmente verdade. O trabalho tornou-se uma nova religião, uma forma de satisfazer a ânsia de encontrar um significado para a vida. Tentamos trabalhar para a obtenção de uma identidade e de um meio para assegurarmos o nosso futuro. E porque investimos tanto tempo no nosso trabalho, gostamos de nos auto-recompensarmos com coisas materiais.
Muitas vezes, gastamos o dinheiro antes de o termos ganho. A dívida é uma reocupação
constante na nossa mente, mantendo-nos acorrentados a um trabalho monótono e árduo, mesmo quando ansiamos por uma folga.
O professor sugere que adoptemos a arte de «viver o momento» como um possível antídoto para o stress auto-infligido causado pela escassez de tempo. É um conceito budista que significa que devemos aproveitar e tirar prazer de cada momento e actividade, em vez de tentarmos fazer muitas coisas de uma só vez e de estarmos constantemente a pensar e a antecipar os trabalhos que aí vêm.
Naquele dia, depois de entrevistar o professor, fui a correr do trabalho para casa a fim de levar o meu filho a um grupo de trabalho pós-escolar. Vendo como eu estava cansada, o meu marido ofereceu-se para o levar à aula, deixando-me com uma hora de tempo livre.
Comecei a fazer os preparativos para o jantar e descobri que me restava meia hora, por isso pensei que ainda conseguiria fazer uma daquelas pequenas tarefas do tipo «faça você mesmo». Mas, em vez disso, parei. Pensei em viver o momento e fui sentar-me no sofá.
Estava uma tarde bonita e, pela primeira vez em dois anos, desde que nos mudámos para esta casa, sentei-me sossegada a apreciar a vista. Vivemos numa aldeia na orla de Cotswolds, e a luz do Sol conferia à pedra uma cor próxima do caramelo. Aqueles vinte minutos pareceram imenso tempo, e, na verdade, quando o meu filho chegou eu já estava descontraída.
Desde então, e sempre que tenho oportunidade para isso, tenho praticado a arte de viver o momento. Apaguei da minha agenda tudo o que não era essencial, adiei os planos para a casa e jardim e recusei algum trabalho extra de prestígio.
A doença da minha mãe só acontece uma vez na vida e é nisso que estou concentrada. Nem uma só vez me senti pressionada ou privada de tempo para mim própria. À minha mãe é que foi, na verdade, roubado tempo, e isso fez com que eu libertasse a minha mente de tudo o que acreditava – erradamente – ser importante.
Ontem, sentei-me e vi um filme com o meu filho. E vi-o de facto. Não tentei ler um jornal ao mesmo tempo, como costumava fazer. Depois, observei-o enquanto adormecia e ouvi o tiquetaque do relógio, à medida que os momentos passam e não voltam mais.
Há coisas simples que podemos fazer para enriquecer as nossas vidas. O perigo maior reside na nossa pressa de saltar a fasquia que estabelecemos para nós próprios, esquecendo-nos de que o tempo é uma fonte limitada.

Winifred Robinson - Adaptação Selecções do Reader’s Digest - Outubro 2004